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10 Anos morando e trabalhando com tecnologia no Canadá - Quais as diferenças em relação ao Brasil

O tempo realmente voa. 10 anos já se passaram desde que deixei as terras tupiniquins e decidi encarar os frios invernos canadenses. Trago aqui algumas reflexões sobre o mercado, ambiente de trabalho, cultura e as diferenças que pude perceber ao longo destes 10 anos.

Einstein uma vez disse:

Coloque a mão em um fogão quente por um minuto e parecerá uma hora. Sente-se com uma garota bonita por uma hora e parecerá um minuto. - Albert Einstein

De fato, a nossa percepção do tempo é relativa. E é assim que me sinto quanto a estes últimos 10 anos de minha vida. Diante de tantas mudanças, tanta novidade, tanto foco, trabalho e estudo, tenho a impressão de que não se passou mais de 1 ano. Terá sido tudo apenas uma ilusão? De acordo com o mesmo Einstein, talvez sim…

A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente. - Albert Einstein

A Decisão de Mudar

A decisão de deixar o país sempre terá algumas particularidades, porém vários dos motivos provavelmente serão semelhantes para a maioria das pessoas que um dia tomam a decisão de deixar seu país de origem.

Obviamente, a decisão nunca é fácil. Deixar para trás sua casa, família, amigos, idioma e todo o resto que lhe foi familiar durante toda a sua vida para encarar algo novo, diferente e que, na maioria dos casos, lhe é completamente desconhecido, sempre virá com uma carga enorme de emoções. Medo e nervosismo certamente destacam-se entre estas emoções. Claro, muitas emoções positivas fazem parte do mesmo pacote - entusiasmo, ânimo, esperança, felicidade, etc. Mas, certamente, as negativas costumam ter um peso maior na maioria dos casos.

É da nossa natureza humana: Temer o desconhecido, o novo.

A Motivação

Sempre fui uma pessoa curiosa e que gostava de estudar e experimentar tecnologias, conceitos, ideias. O mercado de trabalho no Brasil, mais especificamente no Nordeste, onde nasci, não costumava trazer tantas oportunidades para pessoas com este tipo de perfil há cerca de 10-20 anos atrás. O bom e velho: Se tá funcionando, não vamos mudar.

Oportunidades de experimentar coisas novas sempre existiram nos empregos que tive no Brasil, mas sempre encontrava limitações: Seja pelo porte da empresa para investimentos em pesquisa e inovação, seja pelo tamanho das equipes, causando uma rotina de trabalho extremamente puxada e sem tempo para experimentar e inovar, etc. Os motivos sempre foram vários, mas ler sobre diversas tendências e ideias sendo implementadas lá fora, e não poder fazer o mesmo me causava incômodo.

Quanto ao lado profissional, a ideia não era exatamente sair do país como um objetivo, mas sim como um meio. O objetivo era sim trabalhar com tecnologias mais modernas, ideias novas, conceitos inovadores, etc.

Fora do lado profissional, a segurança - ou a falta dela - foi também um fator determinante na minha escolha de sair do país. Depois de diversos assaltos, alguns deles com armas apontadas para minha cabeça, obviamente pensei em possibilidades e sobre como alinhar as duas coisas e buscar um meio de melhorar em ambos os aspectos.

Por Que o Canadá?

Cresci em um edifício residencial na cidade de Fortaleza, capital do estado do Ceará. Embora apaixonado por tecnologia desde muito jovem, aprendendo o básico de programação ainda aos 12, 13 anos de idade, tive uma infância normal. Correndo, jogando futebol, surfando, etc. Dentre os vários amigos que moravam no mesmo condomínio, um precisou sair do Brasil com sua família. Mudaram-se para o Canadá.

Isto me fez pesquisar bastante sobre o Canadá, visto que ainda era muito jovem e pouco sabia sobre aquele país distante e gelado. Graças à internet, mantivemos contato durante anos após sua mudança para o Canadá. Ele sempre me convidava para visitá-lo. Mas que criança consegue dinheiro para uma viagem internacional? A única opção seria esperar alguns anos, entrar na faculdade, estudar um pouco de inglês, etc.

Em 2006, com meus 19 anos, decidi trancar minha faculdade por um semestre para ter esta experiência.

Os 6 meses que passei no Canadá na ocasião mudaram minha vida e perspectiva. Praticamente de imediato o plano se formou em minha mente: Tenho de voltar ao Brasil, terminar minha faculdade, me qualificar o máximo que puder em TI, juntar dinheiro, trabalhar e ganhar o máximo de experiência possível, pesquisar e aplicar para a imigração.

Dentre os aspectos que mais me chamaram a atenção quanto ao Canadá estavam:

  • Enorme aceitação e integração de imigrantes: Como um país que sempre recebeu muitos imigrantes, a integração parecia quase que natural para pessoas do mundo inteiro;
  • Segurança: O que me causava medo no Brasil sumiu de minha mente e praticamente inexistia nas terras geladas;
  • Oportunidades: O Canadá se mostrou um país de muitas oportunidades para pessoas querendo trabalhar e se desenvolver profissionalmente na ocasião, com um mercado de Ti em absurdo crescimento. Por vários anos, Toronto, por exemplo, foi conhecida como o novo Vale do Silício.
  • Familiaridade: O fato de ter passado estes 6 meses por lá, fez com que o “novo” já não fosse mais tão novo e estranho assim quando eu decidisse imigrar de vez.

A decisão estava tomada, agora era questão de tempo.

Preparação Para a Imigração

Ao voltar para o Brasil no início de 2007, o plano já estava todo desenhado em minha cabeça. A ideia era simples: Estudar, trabalhar e juntar dinheiro.

Voltei para meu curso universitário e em paralelo trabalhei em algumas empresas diferentes por um período de 8 anos.

No quesito tecnologia, meu plano era focar no que importava ao invés de agir às cegas.

Utilizei sites de vagas e recrutamento, não apenas o Linkedin, para entender o que o tipo de vaga que eu buscava na ocasião estava pedindo em termos de conhecimentos. Após verificar diversas vagas em empresas dos mais diferentes portes, elaborei uma espécie de planilha:

  • O que pedem em geral;
  • Quais conhecimentos/tecnologias mais se repetem;
  • Destas, quais eu domino, quais conheço o básico e quais não conheço de forma alguma;

Esta planilha literalmente se tornou meu foco para os anos seguintes no Brasil. Era a minha referência na hora de escolher o que estudar, para quais vagas aplicar ainda no Brasil e quando sair de um emprego para buscar outro. Simples, certo!? Tendo um mapeamento do que precisava dominar já ao chegar no Canadá, agora só me restava alinhar meus conhecimentos e preencher as lacunas restantes.

Além do conhecimento técnico, busquei aprender Francês. Sim, o Canadá possui dos idiomas oficiais. A província de Quebec se comunica em francês, enquanto que o restante do país se comunica em Inglês. Já tendo um inglês de intermediário para avançado, faltava-me conseguir ao menos o intermediário de Francês para aumentar minhas chances no Canadá.

Fiz cursos e estudei Francês - de forma presencial e online - por cerca de 5 anos.

Nesse meio tempo, ao finalizar minha graduação universitária, fiz também uma pós-graduação em Gestão de TI. Por que? Eu ainda não tinha o dinheiro necessário ou a experiência profissional que eu queria ter antes de imigrar. Então, o tempo se alinhou. Cursei minha pós enquanto seguia meus estudos de tecnologia e francês. Um plano é um plano, certo? Pular etapas geralmente trás impactos negativos, e eu não podia correr este risco.

Alguns anos depois, fiz toda a papelada e dei entrada no processo federal chamado de Skilled Worker Program. O processo em si durou cerca de 1 ano, entre documentos enviados, análise, recimento de respostas, pedidos de exames médicos, etc.

Uma vez recebida a confirmação de que fui aprovado, iniciei a parte 2 do plano: A reta final.

A Reta Final

Com o passaporte e visto em mãos, só me restavam os passos finais antes de sair de fato do Brasil.

Estes passos eram:

  • Mudar mais uma vez de emprego: Buscar uma vaga com um foco maior em algumas áreas específicas nas quais eu queria pegar experiência antes de ir ao Canadá bem como em um porte de empresa maior;
  • Reduzir mais ainda meus gastos para fazer um esforço maior no último ano para levantar mais dinheiro;
  • Começar alguns contatos iniciais via Linkedin com recrutadores de empresas canadenses, estabelecendo uma espécie de banco de dados pessoal com empresas que eram de meu interesse;
  • Encerrar minha pós-graduação;
  • Vender ou doar o que eu ainda possuía no Brasil;
  • Pesquisar bairros e escolher uma moradia para o primeiro mês via AirBNB;
  • Achar um bom agente de imóveis de forma a já começar a conversa e informar que eu estaria indo para ficar 1 mês em um AirBNB e que gostaria de usar esse mês para visitar apartamentos para escolher algo para alugar de forma mais permanente.

Menos de um ano depois eu estava com praticamente tudo resolvido e pronto para partir. Só me restava vender o carro. Para minha surpresa, acabei não precisando vender. Sim, sofri mais um assalto. Desta vez, com uma arma em minha cabeça e um pedido educado, entreguei as chaves de meu carro.

Parecia um sinal. Se eu ainda tinha qualquer pensamento sobre não ir embora, este episódio foi o empurrão que me faltava.

Cerca de um mês depois disto, eu estava decolando.

Mercado de Trabalho

Vagas, Vagas e Mais Vagas - Vagas Para Todos os Lados

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Apesar do meme humorístico, esta foi basicamente a impressão que tive ao chegar aqui em 2015.

No ano de 2015, o mercado global ainda estava surfando na enorme onda das startups e do dinheiro japonês quase ilimitado financiando empresas em diversas regiões do mundo. Empresas de TI literalmente tinham mais dinheiro do que conseguiam gastar e isso resultou em muitas vagas.

Eu lembro de brincar na época e comentar com amigos que a minha busca por emprego ao chegar aqui foi literalmente:

  • Comprar um Play Station 4;
  • Comprar o jogo Fifa;
  • Comprar umas cervejas;

Uma vez que tinha o meu Linkedin devidamente atualizado e constando que eu morava em Toronto, as empresas começaram a entrar em contato. A partir daí fui selecionando as que me pareciam ser mais adequadas no momento, e fazendo as entrevistas. Em cerca de 3 meses eu estava no meu primeiro emprego na área de TI no Canadá.

Aqui vale o alerta. Não estou de forma alguma dizendo que é fácil conseguir emprego de TI por aqui e que todos conseguirão rapidamente. O mercado, embora vasto, é exigente. Tenho sim diversos amigos brasileiros da área de TI que tiveram dificuldades por aqui e até precisaram mudar de área.

Caso tenha pulado o início desta postagem, recomendo que volte e leia do começo. Em específico, leia a parte onde explico o meu plano de preparação. Eu vim sabendo exatamente o que as empresas daqui buscavam e, literalmente, dediquei anos no Brasil me preparando especificamente para estas vagas daqui.

Não se trata de eu ter tido sorte ou ter sido melhor. Mas sim de metodologia. Criei meu método, estabeleci um plano e mantive o foco durante quase 10 anos, sem pular etapas ou antecipar as coisas.

Albert Einstein já dizia: “Falta de tempo é desculpa daqueles que perdem tempo por falta de métodos.”

Quem sou eu para discordar…

Esta enorme quantidade de vagas continuou existindo durante os anos seguintes.

Mesmo empregado e sem interesse em mudar de emprego, eu recebia ao menos 5 convites para vagas por semana via Linkedin. Em muitas semanas este número chegava a 15 vagas por semana.

A bolha das startups e a era do dinheiro quase infinito do Japão chegou ao fim eventualmente e as coisas mudaram um pouco.

Não que hoje não existam muitas vagas, mas o número certamente diminuiu. Para quem recebia de 5 a 15 convites por semana, hoje recebo cerca de 1 a 3 por semana.

Mas esta queda enorme não se deu apenas pelo mercado, mas também por minha qualificação. Após 10 anos atuando no mercado Canadense, e tendo passado por 5 diferentes empresas, meu cargo foi mudando e subindo de nível. Quanto mais sênior você se torna, maior o seu salário e, por consequência, menor a quantidade de vagas. Um time convencional geralmente terá alguns júniors, alguns intermediários e poucos sêniors, no geral.

No mercado canadense de TI, as categorias dos cargos no geral costumam ser:

  • Júnior
  • Intermediate
  • Senior
  • Staff
  • Principal
  • Distinguished

Ao chegar aqui, meu primeiro emprego era de nível Intermediate, dada minha experiência do Brasil. Hoje estou como Principal, portanto passei pelo Intermediate, Senior e Staff, chegando ao level Principal.

Mas a depressão global do pós pandemia também impactou o mercado daqui. Nos últimos anos temos visto muitas empresas fazendo demissões em massa, o que contribuiu para a quantidade de vagas em aberto diminuírem. O crescimento da adoção de IA também impacta, obviamente.

Diferenças Culturais

Aqui é onde as coisas ficam realmente interessantes, ao menos do meu ponto de vista.

O meu primeiro emprego me pegou de surpresa, em diversos aspectos.

A diferença cultura entre o que eu tinha no Brasil e o que vi aqui em meu primeiro emprego eram absurdamente grandes.

Lembro que em minha primeira semana de trabalho como se fosse hoje. Lá estava eu, focado em meu trabalho, com meu fone de ouvidos abafando quase todo o barulho externo.. quase todo. De repente ouço algo que me parecia ser barulho de carrinhos de supermercado. Tiro meu fone, olho para trás e, de fato, um cidadão vinha subindo pelo corredor empurrando um carrinho. Duas coisas me chamaram a atenção:

1- Ele estava usando um chapéu de bobo da corte; 2- O carrinho que ele vinha empurrando estava cheio de bebidas: cervejas, vinhos, licores, etc.

Ele passava, de mesa em mesa, e as pessoas iam pegando bebidas. E sim, elas pegavak alguma bebida, abriam e começavam a beber enquanto trabalhavam.. na maior naturalidade do mundo, como se fosse normal. De fato, era normal.. eu que não sabia ainda.

Obviamente que eu recusei quando ele chegou em minha mesa. Não peguei nada.

Não cairia em nenhuma armadilha para o novato, óbvio.

Após ver esta cena se repetindo várias vezes, e vendo pessoas servindo-se de bebidas também da cozinha, que sempre estava cheia de bebidas diversas, resolvi criar coragem e perguntar a um colega na minha terceira semana: “Vem cá.. isso é normal? Vocês bebem no horário de trabalho mesmo? Ninguém se importa?

Ele: Como assim?

Eu: Ué.. é álcool, no horário de trabalho…

Ele: Sim..?

Eu: Isso é permitido?

Ele: Como assim permitido? Porque seria proibido?

Eu: Bom, no Brasil, se eu sair em meu intervalo de almoço, tomar uma cerveja e meu chefe ficar sabendo que bebi e voltei ao trabalho, sou demitido na certa.

Ele apenas riu, como se eu estivesse brincando.

Este pequeno diálogo me abriu a mente. As coisas realmente eram muito diferentes entre o Brasil e o Canadá.

Para minha sorte, eles já tinham na época a cultura de reuniões 1 on 1, como eles chamam. Trata-se de uma reunião entre você e seu gerente. Apenas os dois. Estas reuniões costumam acontecer de forma quinzenal ou mensal, dependendo da empresa.

Logo que tive a minha primeira 1 on 1 com meu gerente aproveitei a oportunidade e perguntei sobre esta questão de eles literalmente darem bebidas pagas pela empresa para quem quiser beber durante o trabalho.

Em questão de 2 minutos ele me explicou algo que abriu minha a minha mente para o quão diferente é o tratamento dos profissionais por aqui.

Ele me perguntou: Você é adulto, certo?

Eu: Sim.

Ele: Exato. Não contratamos ninguém que seja menor de idade. Todos aqui são adultos. Logo, todos são profissionais e responsáveis pelos seus atos. Quando eu contrato alguém, assumo que a pessoa vai ser adulta. Como tal, ela sabe como se comportar e sabe se pode ou não beber, e o quando pode beber sem que isso comprometa seu trabalho. Se ela bebe além do que deveria e isso prejudica seu trabalho, ela falhou, obviamente e terá consequências. Mas eu também errei, já que contratei. Significa que eu julguei errado e aprovei alguém que não deveria ter aprovado.

Ali entendi o aspecto de divisão da responsabilidade.

O chefe realmente se coloca responsável pelo funcionário. Inclusive quando o funcionário faz algo errado. A culpa não é apenas do funcionário em si, mas também do seu líder.

O compromisso e senso de ownership (senso de dono) também chamam a atenção.

No Brasil eu estava acostumado a trabalhar de 8:00 às 18:00, e as mesmas cenas se repetiam. Por volta das 17:30 o ritmo de trabalho caia e todos passavam a conversar sobre futebol ou coisas aleatórios, preparando suas mochilas para irem embora. Às 18:00 em ponto, como que em uma cerimônia religiosa, todos levantavam-se e a fila no ponto se formava. O compromisso parecia ser com o seu horário de trabalho, não com o seu trabalho e com a empresa em si.

Por aqui percebi algo muito diferente. As pessoas chegam mais cedo e começam a trabalhar como se já estivessem em seu horário de expediente. Além disso, costumam trabalhar além do seu horário de expediente também, mesmo não recebendo 1 centavo por hora extra. Após anos por aqui, e conversando com vários colegas nestas 5 empresas por onde passei, ficou claro que o sentimento é o mesmo: Ownership.

As pessoas se sentem, de certa forma, como donos também. Sabem que se a empresa vai bem, eles vão bem. Se a empresa vai mal, as chances de eles irem mal ou seu emprego estar ameaçado crescem. A ideia de “eu quero fazer dar certo” está na mente da grande maioria dos funcionários. Um fator importante a se levar em conta é que o senso de ownership muitas vezes é literal.

A prática de dar ações da empresa aos funcionários como um benefício extra é algo relativamente comum, o que amplia este sentimento de “também sou dono”. A nível de exemplo, das 5 empresas nas quais trabalhei por aqui nos últimos 10 anos, apenas uma não deu ações como parte dos benefícios a seus funcionários.

Ou seja, 4 entre 5 empresas me deram ações. O acordo geralmente é o seguinte:

  • Você vai receber X ações ao ser contratado;
  • Estas ações passam gradualmente para seu nome conforme seu tempo de empresa;
  • Conforme seu tempo de empresa e promoções que possa vir a receber, mais ações podem ser lhe dadas.

No Brasil o funcionário rejeita trabalho fora do seu horário de expediente caso não tenha compensação financeira, como pagamento de hora extra. Já aqui, mesmo sem compensação por hora extra os funcionários trabalham fora do seu horário caso estejam tentando finalizar projetos e serviços específicos sem problema algum. E isto é tão comum em noites e fins de semana, que nem soa estranho quando “fulano” faz serviços no fim de semana, mesmo que seja em uma noite de domingo.

Ou seja.. se você não está pronto para isso, talvez seja melhor pensar duas vezes antes de pensar em vir para o Canadá.

Confiança e Cobrança

A confiança da chefia em seus funcionários também é muito maior do que no Brasil. Talvez pelos mesmos motivos já citados acima, os chefes entendem que seus profissionais são adultos e responsáveis. Como tal, ele sabe que pode esperar o cumprimento do serviço de forma apropriada.

Aquela velha cobrança por cima do ombro, praticamente não existe. Ao menos nunca presenciei, nas 5 empresas por onde passei. No geral, os projetos caminham de forma organizada. As equipes em empresas de TI geralmente utilizam SCRUM como metodologia de gerenciamento de projetos, o qual define ciclos de trabalho semanais ou quinzenais. Nesta metodologia, você sabe o que se espera de você ao longo de uma ou duas semanas. Desta forma, os chefes não ficam lhe cobrando diariamente. Confiam na ideia de que você sabe o que tem que ser feito ao longo daquele período e esperam o resultado no fim do mesmo.

O SCRUM também prega reuniões rotineiras, muitas vezes diárias, nas quais cada membro da equipe dá um atualização sobre o que fez no dia anterior, respondendo 3 perguntas:

  • O que fiz ontem?
  • Algo está me bloqueando?
  • O que pretendo fazer hoje?

Isto é o suficiente para os gerentes entenderem como anda o fluxo e andamento dos projetos. E sim, eles confiam nisso.

Algo que sempre gostei no Scrum, independente de ser aqui ou ainda no Brasil, é o fato de que a pessoa tem pouco ou quase nenhum incentivo para procrastinar e matar serviço. Com estas reuniões regulares, a pessoa provavelmente não vai se sentir bem em passar 2 ou mais dias falando que está na mesma tarefa, sem progresso.

A confiança é grande, mas ao menos tempo a cobrança é equivalente.

A qualidade esperada pelo serviço certamente é alta. Mas esta pressão muitas vezes vem do time, não do chefe. O fato de o time em se tentar ser de alta perfornace, com todos se dedicando, faz com que a pessoa que pretende ficar mais acomodada se sinta deslocada. Eventualmente ela vai se sentir incomodada com a própria postura, motivo pelo qual vi mais pessoas por si só desistindo e pedindo para sair do que sendo demitidas por performance. Em um cenário onde a sua performance é mais evidente no dia a dia, fica mais difícil fingir performance.

Flexibilidade e Liberdade

Lembra quando eu disse que os chefes confiam que os profissionais farão o seu trabalho no prazo?

Pois bem.. esta mentalidade traz certas liberdades para os funcionários que possuem uma flexibilidade que nunca vi antes no Brasil.

Coisas como: Entrar mais tarde quando quiser, sair quando quiser sem precisar pedir permissão, sair mais cedo ou mesmo tirar dias de folga simplesmente dizendo algo como “Amanhã tenho coisas para resolver e não poderei vir.” são rotineiras. Sem falar nos que comunicam no dia: “Acordei não me sentido bem, não vou trabalhar hoje.”.

Pedido de atestado médico? Nunca vi.

Eles confiam e sabem que a pessoa é adulta e profissional e que irá achar uma forma de terminar seus projetos independente desta folga.

Já falei do álcool em local e horário de trabalho, certo?

É comum estas empresas terem video games, mesas de sinuca, ping pong, etc.. No escritório. E é comum ver funcionários fazendo uso de tudo isto durante o horário de expediente. Além disso, como muitas empresas fornecem estas coisas no escritório e ainda bebida grátis, é comum que muitos funcionários tenham seu happy hour nas sextas após o expediente na própria empresa. Afinal de contas, se tem jogos, ping pong, sinuca, bebida grátis.. quem vai querer ir para um bar, certo?

Esta mesma liberdade e flexibilidade pode ir ainda mais longe.

Trabalho remoto é algo bem mais comum do que no Brasil.

Eu mesmo hoje trabalho 100% remoto. Estou há quase 4 anos na mesma empresa e nunca pisei no escritório, que sequer fica no mesmo estado/província em que moro.

Outra coisa que já vi com uma certa frequência é que algumas destas empresas de tecnologia oferecem férias ilimitadas. Isso mesmo, não possuem um limite de quantos dias de férias você pode tirar durante o ano.

As duas últimas empresas nas quais trabalhei são assim. Hoje, eu mesmo defino quantos dias de férias por ano quero tirar. Quer mais flexibilidade que isso?

No momento em que estou digitando este post estou justamente em um aeroporto, esperando meu próximo vôo. Estou indo ao brasil visitar a família, o que faz parte desta liberdade de férias sempre necessária.

E, já que o assunto é férias… a divisão destas férias ao longo do ano é outra coisa muito diferente.

Em minha vida profissional no Brasil, dentro do regime CLT, minhas férias sempre foram algo fechado e sem flexibilidade. 1 mês de férias ao ano, tudo de uma vez só.

No Canadá as férias são divididas conforme a vontade do trabalhador. Se quiser tirar 3 dias nessa semana, 3 dias no mês seguinte, 4 dias no mês seguinte, etc.. isso é normal e aceito na legislação trabalhista.

Além disso, fins de semana e feriados não contam como dias de férias, portanto é muito comum que alguém agende apenas 5 dias de férias (seg-sex) mas acabem ficando 9 dias seguidos de folga: sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo. Neste caso, apenas conta como 5 dias de férias.

Processo Seletivo

Acho um pouco injusto comparar o processo seletivo daqui com o do Brasil pois faz 10 anos que saí do Brasil, e imagino que muita coisa tenha mudado neste meio tempo, mas vamos tentar…

Ao menos enquanto eu morava e trabalhava no Brasil, era muito raro alguma vaga pedir desafios técnicos aos candidatos. No geral, o processo seletivo no Brasil tratava-se de duas etapas em média, uma mais generalista com alguém de Rh e outra mais técnica com alguém da área.

Por aqui, ao longo destes 10 anos, nunca tive um processo seletivo com menos de 3 etapas. Geralmente são 3 ou 4 etapas. E, entre estas etapas, geralmente existe um desafio técnico incluso, no qual lhe é apresentado um desafio e um cenário para que você possa resolver.

A forma como estas etapas práticas funcionam varia de acordo com a empresa. Já tive empresas que passaram um desafio para ser feito em casa e depois apresentado, depois defendido pessoalmente, mas também já tive casos onde o desafio prático é ao vivo onde eles lhe apresentam o problema na hora e ficam assistindo enquanto você tenta resolver.

No geral, é uma forma de eles não apenas verem se você resolve o problema, mas também como é a sua linha de raciocínio para buscar uma solução.

Um exemplo em particular que achei bastante interessante foi quando a equipe que estava me avaliando para a vaga me passou um desafio ao vivo, para que eu resolvesse na frente deles. Ao ver o desafio, eu disse: “Olha, em respeito ao tempo de vocês, eu vou ser honesto e desistir pois nunca trabalhei com essa tecnologia antes.”

Um deles sorriu e respondeu: “Sim, nós sabemos disso. Escolhemos algo que não tinha no seu currículo intencionalmente. Temos mais interesse em ver como e quão rápido você aprende tecnologias novas e resolve problemas do que em ver como você resolve algo com uma tecnologia que você já domina. Queremos entender o seu processo de aprendizado.”

Eu sorri de volta e disse: “Ok.. se você diz.. vamos tentar então..”

E ele respondeu: “Sinta-se livre para utilizar o Google, buscar manuais, ou o que for necessário.”

Além dos desafios técnicos, é muito comum desafios ao vivo com quadro branco, onde lhe pedem para esboçar diagramas, arquiteturas, etc. Este tipo de situação muitas vezes é ruim para alguns candidatos que sentem nervosismo em situações assim, infelizmente.